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A garota e o rei

August 16, 2017

 

A garota, quando acordou, à medida que suas lágrimas cediam um pouco, abriu os olhos e viu os escombros da cidade. Não tinha memória de nada, que estranha e desolada terra era aquela ou mesmo quem ela própria fosse. Procurava o que não sabia, alguém, alguma coisa. Conhecia uma língua que lhe era estranha e vozes desconexas falavam em sua cabeça. Ouviu em seu peito uma palavra, “Guerra”, e intuiu que a dor que sentia guardava uma relação com a palavra, e decidiu-se a não esquecê-la.
 

Pôs-se a andar, seguindo caminhos que desconhecia. Avistou afinal a entrada da caverna, onde entrou, buscando escapar do frio intenso. A escuridão era total, mas ela insistiu, seguindo sempre em frente, tateando a parede da caverna. Em dado momento, quando seus olhos já se acostumavam à ausência de luz, ela percebeu que a escuridão se dissipava pouco a pouco, até que viu o que parecia ser o centro da caverna. Em lugar algum havia lâmpadas, mas o ambiente era banhado por uma luz intensa.
 

Era um espaço imenso, onde mal se via a alta abóbada, onde o chão se tornava uma fina areia, sobre o qual era possível perceber blocos de pedra postos de tal forma que pareciam ser uma mesa redonda com doze banquinhos; à direita, uma fonte de água límpida jorrava sem cessar e, por detrás do conjunto, alguns degraus naturais levavam a uma enorme cadeira talhada na pedra onde, de repente constatou assustada, sentava-se um garoto com um chapéu esquisito na cabeça.
 

Ao recuperar-se do susto, caminhou lentamente até o garoto, que já se levantara e esperava por ela no alto da escada. Ao ouvir sua voz, ela percebeu que podia entender suas palavras, mas não pôde encarar seu olhar de frente. Ele disse que cedo chegaria um momento de descanso, mas ela deveria antes se vestir apropriadamente para um jantar com o rei, pedindo-lhe expressamente que não dormisse ainda, mesmo que seu cansaço fosse intenso. Num vão na rocha, pegou um lindo vestido vermelho e o entregou à garota, dirigindo-a a uma concavidade atrás do trono, onde poderia se trocar.
 

Ela lentamente tirou seus velhos trapos que o suor colara em sua pele, quando viu à sua direita um monte de palha em parte coberto por linho branco. Ela imaginou que poderia sentar-se por um minuto, até mesmo deitar-se um pouquinho, mas assim fazendo, quase sem querer, adormeceu.


Ao acordar, desesperou-se. Sentiu que havia perdido um evento muito importante, um jantar com o rei, e se sentia culpada e suja, envergonhava-se de sua nudez e estupidez. Pensava que o rei poderia lhe explicar a razão de tudo aquilo, talvez mesmo lhe dizer quem ela era e o motivo da dor que a acompanhava. Perguntou-se se ainda haveria tempo de corrigir seu erro, depressa pôs o vestido que o garoto lhe dera e saiu, mas não havia mais ninguém. Havia restos de jantar sobre a mesa, no entanto, e sua fome antiga lhe impulsionou a iniciar uma solitária refeição.


Repentinamente, porém, viu-se pensando no garoto, em seus longos cabelos, em como seus olhos eram belos e puros, e desejou estar com ele, envolvendo-se tanto em devaneios que abandonou a refeição pela metade. Percebeu então que a mesa havia sido posta para uma única pessoa. Desconfiou a princípio que o rei não tivesse vindo, quando finalmente compreendeu. Claro, aquela pose imponente não era comum em garotos; a forma como pegou em suas mãos e a sobriedade de sua voz, tudo lhe mostrava a realidade.


A partir daí, decidiu-se a sair em uma busca incessante pelo garoto, que não abandonaria enquanto não atingisse sua meta. Ela estava disposta a tudo, pois descobriu que o amava, que o amara desde o primeiro instante que o vira, mas o caos em sua mente, o cansaço, a dor, não lhe permitira perceber antes. Seguiu pegadas que imaginou reconhecer na areia e mergulhou na escuridão, abandonando aquele local. Carregava consigo apenas uma bolsa de pães que encontrara pendurada na cadeira em que, antes dela, o garoto se sentara para comer.


Por mais que se afastasse, ela percebia que continuava enxergando o suficiente para prosseguir em sua caminhada. As galerias, porém, se sucediam, tediosas e vazias, mas sempre para baixo, dando lugar a passagens baixas e estreitas que exigiam que se rastejasse por um tempo que julgava interminável. Muitas vezes, perdendo toda a esperança, chorou, às vezes alta e raivosamente, outras com lágrimas suaves e deprimidas. Em alguns momentos, pareceu-lhe que andava em círculos. Se conhecesse tal palavra, reconheceria na imensa caverna um labirinto, porventura infinito, mas levando a profundezas cada vez maiores.


Nos momentos em que o desespero chegava ao ponto de levá-la a desistir de seu intento, ou mesmo de sua vida, ela percebia uma canção muito distante vibrando no ar e imaginava-se dançando com o rei num amplo salão, o que lhe reavivava as forças. Descobria também que sua bolsa nunca se esvaziava totalmente, que sempre havia um mínimo de alimento para sustentá-la, e imaginava que a canção tivesse alguma relação com o curioso fato. Além disso, apesar de tudo, seu vestido tampouco se sujava ou rasgava.


Num certo dia, quando caiu mais uma vez desfalecida sobre o chão duro, teve um sonho que a fez acordar feliz, apesar de não se lembrar do que sonhara. Uma nova disposição movia seus passos, e caminhos tortuosos pareciam-lhe agora dotados de um colorido sobrenatural. Ela teve a sensação, incrível, de conhecer seu destino e caminhava resoluta, escolhendo sem pestanejar entre caminhos possíveis em bifurcações. Achou que ouvia a música de novo, mas agora mais próxima, o que a levou a assobiar a melodia e mesmo a criar uma letra, que a fez rir às gargalhadas, passando a cantarolar alto: 

 

“Eu sei o caminho / Ninguém me segura / Não estou mais sozinha / Esta é minha ventura.”


Em certo ponto do caminho estancou, reconhecendo, na parede ao redor, uma pedra que se movia, aproximadamente de sua altura, por onde entrou num recanto exíguo antes escondido, onde avistou uma mesa de madeira, e sobre ela vários utensílios antigos: uma bússola, um mapa amarelado, um espelho quebrado, uma luneta enferrujada e um livro. Também ali se ouvia a melodia, mas ela teve a impressão de que num compasso diferente, mais cadenciado e sombrio, talvez mais triste, mas de uma tristeza diferente da que conhecera até então, mesmo bela.
 

O livro a atraiu imediatamente e, ao abri-lo, foi tomada por uma estranha comoção pelas estranhas figuras que iniciavam cada página ou pelas próprias palavras que ela estranhamente podia ler. Ao se aprofundar na leitura, descobriu os segredos da Guerra: o surgimento dos homens, a dor que carregavam consigo, suas criações e conflitos que os afastaram, mas no centro de tudo reconheceu a figura de uma rosa, pintada num vermelho vivo como sangue – como seu cabelo, como seu vestido...
 

Ao final da leitura, seus olhos irradiavam um brilho diferente que ela reconheceu, ao olhar no espelho, ser o mesmo que ela vira nos olhos do menino rei. Ela sabia que agora não mais desviaria o olhar de seu rei, quando o encontrasse de novo. 

 

Com confiança, ela olhou o mapa e, com a ajuda da bússola, se deixou guiar pelos corredores. A luneta lhe permitia enxergar entradas e passagens onde antes só havia os muros sem fim da caverna labiríntica.


Adentrou finalmente num recinto mais espetacular que aquele em que se dera o primeiro encontro dos dois, uma catedral esculpida pela natureza ou o mais belo salão de bailes do mundo, ou as duas coisas de uma só vez. Havia uma réplica de todos os objetos do primeiro local, a mesa, as cadeiras, (o que ela agora reconhecia ser) o trono, a fonte. Ali estava o verdadeiro centro da caverna infinita, não sendo o primeiro mais que uma imagem dele.


Não era, porém, simplesmente o centro da caverna, o centro do mundo, mas a imagem primordial de todos os centros. E ali irradiava a luz de uma rosa vermelha, sanguínea, como um sol vermelho, de onde também se originava a canção, agora num ritmo diferente, como uma linda e antiga valsa. Mas a garota, apesar de soberbamente vestida, ainda estava descalça.


Quando assim pensava, percebeu que se fazia silêncio, a música cessara. Imaginou ter visto no espelho uma sombra que se movia por detrás dela e, antes que tivesse tempo para se virar se sentiu tocada no ombro. Sabia que era o rei, que já lhe puxava pelas mãos, convidando-a para acompanhá-lo; e ela o seguiu.

 

Sabia que podia confiar nele, mas temia também ser repreendida por seu erro passado. O rei, no entanto, era todo compaixão e amor, guiado por uma saudade infinita da garota. Ele sabia que só lhes faltava passar por uma última prova, a valsa final, que novamente se podia ouvir.


O rei, então, abriu uma caixa dourada de onde tirou sapatinhos de veludo que combinavam perfeitamente com o novo traje da garota e calçou-os nela. Valsaram durante horas, até ficarem exaustos e irem dormir juntos sob uma abertura na rocha, onde brilhava, além das luzes suaves das estrelas e da lua, a luz da rosa vermelha, embalando os amantes num sono tranquilo e profundo.

 

A música ecoava ainda, com um ritmo suave, como uma canção de ninar que lentamente ecoava pelos corredores:


“Era um sol vermelho como o de Krypton, como o sangue vermelho de Jesus Cristo, quando beijei seus olhos silentes, pálidos; quando fechei meus olhos para o passado...”

(Adelmo Avancini e Cecilia Moura.)
FIM 

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